Guerra no Irã ainda ameaça rali recorde de Wall Street

Wall Street quer virar a página da guerra no Irã, mas os números sugerem que os investidores podem estar se movendo mais rápido do que os próprios riscos. Com o conflito se aproximando da nona semana, negociações entre Estados Unidos e Irã são esperadas para o fim de semana, e cresce o otimismo de que as operações militares no Golfo Pérsico possam estar perdendo força. Esse otimismo ajudou a impulsionar os principais índices acionários dos EUA, com o S&P 500 e o Nasdaq Composite atingindo novos recordes, enquanto o Dow Jones Industrial Average ficou menos de 2% abaixo de seu pico anterior.

O humor do mercado claramente melhorou. Investidores voltaram a focar ações de tecnologia, gastos com inteligência artificial e os resultados de grandes empresas de megacapitalização previstos para a próxima semana. Em muitos aspectos, Wall Street parece ansiosa para retomar sua narrativa preferida: lucros corporativos fortes, consumidores resilientes, crescimento impulsionado por IA e possível continuidade do mercado altista.

Wall Street quer virar a página, mas o petróleo continua tenso

Mas o mercado de petróleo continua tenso. Os preços globais do petróleo ainda estão próximos de níveis capazes de afetar inflação, custos corporativos e gastos das famílias. O Estreito de Ormuz segue como uma fonte central de incerteza, o tráfego de navios-tanque foi afetado, e as perdas de oferta no Oriente Médio continuam influenciando as perspectivas de energia.

Isso cria uma contradição importante. As ações se comportam como se o pior pudesse ter passado. O mercado de energia ainda se comporta como se a situação continuasse frágil.

Investidores estão cansados da volatilidade do conflito

Parte do rali pode refletir exaustão, e não certeza. George Catrambone, chefe de renda fixa para as Américas na DWS, descreveu o mercado como ansioso, ou simplesmente cansado, dos altos e baixos ligados ao conflito. Essa distinção é importante.

Mercados podem ficar dessensibilizados ao risco quando uma crise dura mais do que o esperado. No início da guerra, muitos investidores podem ter presumido que o conflito seria curto, intenso e contido. Em vez disso, ele já se estende por quase dois meses e agora parece seguir uma trajetória mensal, não semanal.

Quando uma crise se torna persistente, os mercados frequentemente tentam normalizá-la. Investidores começam a tratar manchetes alarmantes como parte do pano de fundo. Isso pode sustentar o apetite por risco no curto prazo, mas também pode criar complacência. Se os riscos de fundo não desapareceram de fato, um rali forte pode ficar vulnerável a uma reversão repentina.

Esse é o desafio atual. O mercado está cansado da guerra no Irã, mas estar cansado de um risco não significa que ele foi resolvido.

Ações sobem apesar do petróleo perto de US$ 100

A força das ações americanas chama atenção porque ocorre apesar dos preços globais do petróleo permanecerem próximos de US$ 100 por barril. Normalmente, petróleo nesse nível levantaria preocupações sobre inflação, consumo e política monetária. Preços mais altos do petróleo podem elevar gasolina, diesel, combustível de aviação, transporte e custos de produção em toda a economia.

Mesmo assim, o mercado acionário está focado em outra direção. A recuperação das ações de tecnologia ajudou a compensar as preocupações energéticas. Investidores também se preparam para resultados importantes de megacaps de tecnologia na próxima semana, que podem determinar se a narrativa de mercado impulsionada por IA continua intacta.

Essa divisão entre ações e commodities é uma das características mais importantes do momento. Investidores em ações apostam que lucros corporativos, especialmente em tecnologia, podem permanecer fortes o suficiente para suportar o choque energético. Operadores de petróleo, por outro lado, ainda precificam um mercado lidando com perda de oferta e grande incerteza geopolítica.

O próprio presidente Donald Trump teria dito que esperava uma queda muito mais forte das ações, sugerindo que até formuladores de política podem estar surpresos com a resiliência do mercado. Mas a ausência de uma queda de 20% não significa que o risco desapareceu. Pode significar apenas que investidores estão assumindo que o choque será administrável.

O petróleo disparou desde o início da guerra

Os números da energia continuam desconfortáveis. Desde o início da guerra em 28 de fevereiro, o Brent global subiu 45,3%, enquanto o West Texas Intermediate dos EUA avançou 40,9%. Esses são movimentos grandes para os mercados de commodities mais importantes do mundo.

É verdade que os preços do petróleo recuaram um pouco neste mês. O Brent caiu 11% até agora em abril, enquanto o WTI recuou 6,9%. Mas essa queda parcial não apaga o tamanho do salto anterior. O Brent à vista para entrega imediata ainda acumulava alta de cerca de 45% até 20 de abril.

Isso importa porque o petróleo não é apenas mais uma classe de ativos. Ele afeta quase todos os setores da economia. Preços mais altos podem elevar custos de transporte, custos de companhias aéreas, distribuição de alimentos, despesas de manufatura e contas de energia das famílias. Se essas pressões persistirem, podem desacelerar o consumo e complicar o cenário inflacionário.

Até agora, o mercado acionário parece tratar o choque do petróleo como doloroso, mas administrável. Isso pode estar correto se a diplomacia avançar e as rotas de oferta se normalizarem. Mas, se o conflito se prolongar, o choque energético poderá se tornar mais difícil de ignorar.

Os números do mercado acionário ainda parecem fortes

A razão pela qual investidores estão dispostos a olhar além do petróleo é que os fundamentos do mercado acionário ainda parecem fortes, especialmente em tecnologia. O S&P 500 subiu 29,4% em relação a um ano atrás, apoiado por lucros robustos e entusiasmo em torno da inteligência artificial.

A margem de lucro estimada do setor de tecnologia do S&P 500 no primeiro trimestre é de 29,1%, um nível extremamente forte. Para o índice mais amplo, a margem estimada é de 13,4%, o que seria o maior patamar em mais de 15 anos.

Esses números ajudam a explicar por que investidores relutam em abandonar as ações. Se as empresas continuam apresentando margens elevadas, o mercado consegue justificar valuations mais altos. Empresas de tecnologia, em particular, parecem relativamente protegidas da exposição direta ao petróleo em comparação com transporte, manufatura, companhias aéreas ou setores ligados ao consumidor.

Mas margens fortes também elevam o nível de exigência. Se investidores pagam caro por ações porque as margens estão elevadas, qualquer sinal de pressão vindo de energia, salários, cadeias de suprimento ou demanda mais fraca pode virar problema.

Gastos com IA sustentam a narrativa de crescimento

Outro motivo para o otimismo do mercado é a inteligência artificial. Um grupo de grandes empresas deve destinar cerca de US$ 4,5 trilhões em investimentos de capital para a construção de data centers de IA até o ano fiscal de 2030, segundo o Goldman Sachs.

Essa escala de gastos pode apoiar o crescimento econômico ao impulsionar investimentos em chips, data centers, infraestrutura energética, equipamentos de rede, software e serviços de nuvem. Também sustenta a história de lucros para empresas ligadas à infraestrutura de IA e plataformas digitais.

No entanto, IA não é um motor de crescimento sem riscos. O mesmo boom que apoia investimentos também pode aumentar a pressão sobre empregos de escritório. A Meta afirmou recentemente que planeja cortar 8.000 vagas, destacando a tensão entre produtividade impulsionada por tecnologia e estabilidade do mercado de trabalho.

Por enquanto, investidores focam o lado positivo da IA: maior produtividade, lucros mais fortes em tecnologia e crescimento de longo prazo. Mas, se as perdas de empregos acelerarem ou se os gastos com IA não gerarem os retornos esperados, a narrativa pode ficar mais complexa.

O Estreito de Ormuz continua sendo o ponto crítico

O principal risco energético continua sendo o Estreito de Ormuz. A passagem é um dos gargalos de petróleo mais importantes do mundo, e interrupções ali têm grandes consequências para a oferta. Segundo Matt Smith, principal analista dos EUA na Kpler, a perda acumulada de oferta de petróleo deve chegar a cerca de 700 milhões de barris até o fim de abril.

Esse número mostra por que o mercado não pode simplesmente ignorar o conflito. Liberações emergenciais de reservas, redirecionamento de rotas no Golfo Pérsico e alívio temporário de sanções sobre Rússia e Irã ajudaram a impedir que o petróleo chegasse a níveis muito mais altos. Michael Lynch, presidente da Strategic Energy & Economic Research, afirmou que esses fatores ajudaram a manter os preços em torno de US$ 100.

Mas isso não significa que o mercado esteja estável. O Brent subiu 16,5% nesta semana, enquanto o WTI avançou 14,3%, marcando as maiores altas semanais desde a primeira semana da guerra. Esse tipo de movimento mostra como os mercados de energia podem reagir rapidamente quando a perspectiva piora.

Em outras palavras, o petróleo não explodiu para US$ 200 por barril, mas continua extremamente sensível.

O choque de oferta ainda não apareceu totalmente nos preços

June Goh, analista sênior de petróleo da Sparta Commodities, afirmou que o Irã parece capaz de jogar no longo prazo, enquanto o envio de mais tropas para o Oriente Médio torna difícil enxergar um fim rápido para o impasse. Ela também observou que o maior choque de oferta de petróleo da história moderna ainda não foi acompanhado por um movimento equivalente nos preços do Brent.

Esse ponto é importante. Se as perdas de oferta são historicamente grandes, mas os preços não subiram tanto quanto esperado, investidores precisam perguntar por quê. A resposta pode envolver intervenções emergenciais, rotas alternativas, ajustes de demanda ou a crença do mercado de que a interrupção será resolvida.

Mas, se esses fatores estabilizadores enfraquecerem, o petróleo pode subir mais. O mercado pode estar subestimando a duração ou a gravidade do choque de oferta. Essa é a preocupação para investidores que acham cedo demais para virar a página da guerra.

O principal risco não está apenas no preço atual do petróleo. Está na possibilidade de o petróleo permanecer elevado por tempo suficiente para afetar expectativas de inflação, comportamento do consumidor e decisões dos bancos centrais.

Custos de energia mais altos atingem famílias rapidamente

Nos Estados Unidos, os efeitos diretos da guerra ainda podem parecer distantes para muitas famílias, mas os custos de energia já são visíveis. Catrambone destacou famílias pagando cerca de US$ 4 por galão de gasolina em nível nacional e US$ 5 por batatas chips. Esses são os preços cotidianos que moldam a psicologia do consumidor.

Preços mais altos de gasolina e diesel reduzem renda disponível. Mesmo que salários estejam subindo, famílias podem se sentir mais pobres quando combustível, alimentos, moradia e saúde sobem ao mesmo tempo. Isso pode reduzir gastos discricionários e pressionar varejistas, restaurantes, empresas de viagens e marcas de consumo.

Havia esperança de que restituições de impostos maiores este ano pudessem apoiar o consumo. Mas, se famílias usarem esse dinheiro para cobrir energia, aluguel, saúde e alimentos, o impulso econômico pode ser menor do que o esperado.

É aqui que o choque do petróleo sai dos mercados financeiros e entra na economia real. Famílias não precisam acompanhar contratos futuros de Brent para sentir o efeito. Elas sentem no posto de gasolina, no supermercado e nas contas mensais.

Riscos de inflação continuam difíceis para o Fed

A guerra no Irã também complica o quadro inflacionário. Preços mais altos de energia podem alimentar rapidamente a inflação cheia. Se persistirem, também podem afetar transporte, produção e custos de serviços.

Para o Federal Reserve, isso cria um ambiente difícil. Se a inflação continuar elevada por causa da energia, cortar juros fica mais complicado. Mas, se custos energéticos mais altos enfraquecerem consumo e confiança empresarial, a economia também pode desacelerar. Isso cria um dilema de política monetária.

Os mercados têm se sentido confortáveis recentemente com a ideia de que lucros fortes em tecnologia podem compensar a incerteza macro. Mas, se as pressões inflacionárias se intensificarem, as expectativas de juros podem mudar novamente. Rendimentos mais altos pressionariam valuations, especialmente de empresas de crescimento.

É por isso que o petróleo continua tão importante para as ações. A ligação nem sempre é imediata, mas é poderosa. Energia afeta inflação, inflação afeta política do Fed, e política do Fed afeta valuations.

O rali pode continuar, mas os riscos seguem ativos

Nada disso significa que as ações precisam cair imediatamente. Mercados podem continuar subindo mesmo diante de grandes riscos, especialmente quando o momento dos lucros é forte e investidores confiam na liderança das empresas de tecnologia. O fato de S&P 500 e Nasdaq alcançarem recordes mostra que compradores continuam ativos e dispostos a olhar além do conflito.

Mas a sustentabilidade do rali depende de o choque energético permanecer contido. Se o petróleo estabilizar, a diplomacia avançar e os lucros corporativos continuarem fortes, investidores podem estar certos ao olhar através da crise atual. Se o petróleo voltar a disparar, o Estreito de Ormuz continuar interrompido ou as expectativas de inflação subirem, o mercado pode rapidamente reavaliar o cenário.

As próximas semanas, portanto, serão críticas. Negociações entre EUA e Irã, fluxos de petróleo, resultados de tecnologia, dados de inflação e sinais de consumo serão todos importantes. Investidores não estão acompanhando apenas uma história. Estão acompanhando vários riscos interligados.

Conclusão

Wall Street parece pronta para seguir em frente em relação à guerra no Irã, mas os números indicam que a cautela ainda é necessária. As ações estão em máximas ou perto delas, as margens de tecnologia seguem fortes e os gastos com IA continuam sustentando a narrativa de crescimento. Ao mesmo tempo, o Brent subiu mais de 45% desde o início da guerra, o WTI avançou mais de 40%, e a perda acumulada de oferta de petróleo pode chegar a cerca de 700 milhões de barris até o fim de abril.

O mercado pode estar cansado do conflito, mas os mercados de energia seguem tensos. Preços mais altos do petróleo podem afetar inflação, consumo das famílias, custos corporativos e política do Federal Reserve. Isso significa que a guerra continua relevante, mesmo que investidores em ações prefiram focar resultados de tecnologia e crescimento em IA.

Por enquanto, o rali permanece intacto. Mas investidores que acreditam que a guerra no Irã já ficou no passado para os mercados devem observar com cuidado os números do petróleo, as perdas de oferta e os riscos inflacionários. O mercado acionário pode estar olhando para frente, mas o choque energético ainda está muito presente.

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